No mês passado, uma revista científica especializada em paleontologia, a Journal of Systematic Palaeontology, publicou a descrição de uma nova espécie de dinossauro, descoberta no Maranhão, área da Amazônia Legal. Batizado de Dasosaurus tocantinensis, por conta da região onde foi encontrado, próxima ao rio Tocantins, a espécie pré-histórica se une a outras quatro já encontradas e descritas na região amazônica, além de pegadas fossilizadas também já identificadas.
Os fósseis do Dasosaurus tocantinensis foram localizados por acaso em 2021, no município de Davinópolis, durante a realização de obras de infraestrutura, mas apenas agora o animal teve suas características completamente descritas e divulgadas. A pesquisa foi liderada pelo biólogo especializado em paleontologia Elver Mayer, da Universidade Federal do Vale de São Francisco.
Entre os restos mortais do dinossauro, está um fêmur que mede cerca de 1,5 metros, o que permitiu aos pesquisadores estimar que ele tinha cerca de vinte metros de comprimento - e um enorme pescoço - constituindo um dos maiores dinossauros já encontrados no Brasil.
Trabalho minucioso
Os fósseis do Dasosaurus tocantinensis foram achados durante escavações para nivelar o terreno na obra de um terminal rodoferroviário em Davinópolis. “O licenciamento ambiental exige que a obra seja monitorada por um arqueólogo e, felizmente, esse arqueólogo reconheceu que lá havia fósseis e eu acabei sendo chamado. Em um primeiro momento, acreditamos que era um material mais recente, da Era do Gelo, talvez uma preguiça gigante. Mas, analisando o terreno, que são rochas bem antigas, com fósseis tão grandes, concluímos que só poderia ser um dinossauro”, conta Elver Mayer.
Contudo, para poder confirmar ser de fato um dinossauro e de que tipo, foi realizado um trabalho minucioso, de preparação dos fósseis e descrição da espécie. “É uma longa etapa de preparação, em que a gente remonta os fragmentos, remove partes da rocha que estão aderidas nos fósseis. É um serviço fino, caprichado, realizado em laboratório e leva muito tempo. Quando conseguimos analisar os fósseis diretamente, sem os restos de rocha aderidos, organizamos o material por partes do corpo, vértebras, costelas, ossos longos, a partir, também, das escavações, porque fomos posicionando de acordo com uma espécie de mapa de onde cada osso foi achado”, relata o pesquisador.

Parentesco com dinossauros de outros continentes
Depois de toda a análise detalhada da morfologia dos ossos, foi possível descrever a espécie, comparando com dinossauros de intervalo de tempo geológico semelhante. “As características do Dasosaurus tocantinensis incluem aquelas compartilhadas pelos saurópodes [dinossauros herbívoros], que são pescoço longo, cauda muito longa e deslocamento quadrúpede. O ambiente na época era muito quente. Então, esse dinossauro não viveu na floresta amazônica como a gente conhece hoje. As plantas hoje são muito diferentes, a geografia, a geomorfologia, os rios, tudo isso. Hoje em dia é muito mais úmido e diverso”, pontua.
A partir da análise das características do animal, os pesquisadores concluíram que o Dasosaurus tocantinensis é parente de um dinossauro encontrado na Espanha, o Garumbatitan morellensis. A teoria é que esta última espécie se dispersou para o norte da África e de lá para a América do Sul, há cerca de 130 milhões de anos, quando os continentes ainda eram interligados por conexões terrestres, antes da abertura completa do Oceano Atlântico.
Outro registro de dinossauro encontrado na Amazônia Legal, mas proveniente de outro continente, é do gênero Carcharodontosaurus. A Formação Alcântara, uma unidade geológica do período cretáceo localizada no município de Alcântara, no Maranhão, revelou fósseis com dentes desse tipo de animal, que viveu no noroeste da África e que também deve ter se dispersado para a América do Sul.
Um desses fósseis, com um dente de carcarodontossauro, está localizado na coleção de paleontologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém. De acordo com a paleontóloga Ana Paula Linhares, pesquisadora do MPEG, esse gênero é um dos representantes da fauna de dinossauros que existiu durante a Era Mesozoica, um intervalo de tempo entre cerca de 252 milhões de anos até 66 milhões de anos.

“Aqui na Amazônia, temos o clima tropical. Mas, naquele período, o clima era um pouco mais árido ou semiárido. Esse registro de carcarodontossauro tem grande semelhança com outros exemplares que foram encontrados no continente africano. Isso é um indicador de que o continente sul-americano estava acoplado ao que hoje é o continente africano, permitindo essas migrações”, explica a especialista.
Outras espécies
No território da Amazônia legal, já foram registradas pelo menos outras três espécies, além das descritas acima: o Amazonsaurus maranhensis, um saurópode encontrado no Maranhão, o primeiro localizado na Amazônia Legal; o Oxalaia quilombenses, também no Maranhão, cujo nome faz referência ao orixá Oxalá e é o maior dinossauro carnívoro já descoberto no país; e o Pycnonemosaurus nevesi, também carnívoro, achado no Mato Grosso.
Em comparação ao restante do Brasil, que tem mais de 50 dinossauros já catalogados, os dinossauros do território que hoje conhecemos como Amazônia são poucos. De acordo com Mayer, a dificuldade de encontrar fósseis na região está relacionada a vários fatores.

“Primeiro, há uma cobertura vegetal muito densa, que impede que a gente visualize afloramento dos fósseis. Além disso, tem a questão da evolução climática da floresta, que reúne características que favorecem que os materiais não sejam preservados. Houve uma dinâmica hidrológica muito complexa, que não favoreceu a formação desses fósseis ao longo da evolução geológica. Por isso, é importante que grandes obras contem com o monitoramento de paleontólogos, além de arqueólogos. Se o arqueólogo em Davinópolis não tivesse se atentado para os fósseis e chamado a paleontologia, o material teria sido destruído com a chuva ou com as escavações”, aponta.
Ana Paula Linhares, do Museu Goeldi, corrobora a explicação. “Nosso ambiente muito chuvoso levou à degradação das exposições de fósseis, quando elas aconteceram. Então, não quer dizer que não houve depósito de fósseis mas, ao longo do tempo, isso foi exposto e erodido. E também existem as chamadas bacias sedimentares, que são preenchidas ao longo do tempo por várias camadas. Estão abaixo da linha da superfície, o que torna mais difícil encontrar. Precisaria de coletas, extraindo material debaixo do solo”, analisa a pesquisadora. “O registro da Amazônia é menor, mas não significa que esses animais não estavam ali. Pelo contrário, as expectativas é que realmente haja mais do que realmente a gente conseguiu registrar até o momento”, complementa.
Pegadas
Além de fósseis com restos mortais de dinossauros, uma grande descoberta aconteceu no município de Bonfim, no norte de Roraima. Foram registradas mais de dez pegadas associadas à era jurássico-cretácea. O achado ocorreu durante uma pesquisa de campo com alunos de Geologia do professor e geólogo Vladimir de Souza, da Universidade Federal de Roraima.

“Ao verificar rochas de arenito em um lajedo, verificou-se inúmeras formas arredondadas e elípticas que desconfiei serem pegadas, o que se confirmou ao encontrarmos algumas de três dedos. Isso não deixou mais dúvida de que eram pegadas de dinossauros, já que as rochas são do período Cretáceo”, conta Souza.
Os estudos para identificar os dinossauros, seus gêneros e características, durou mais de dez anos e foi divulgado apenas em 2025. De acordo com a pesquisa, não é possível saber, com certeza, a quais espécies de dinossauros pertenciam as pegadas mas, a partir delas, estima-se quais grupos viviam na região, como raptores, ornitópodes e tireóforos, que possuíam uma armadura na parte dorsal e superior do corpo, com chifres ou espinhos.
Embora apenas seis grupos tenham sido identificados, os pesquisadores acreditam que ali viviam mais de vinte. “A enorme quantidade de pegadas e por vezes trilhas com mais de 30 metros mostra que a região possuía uma grande diversidade destes seres, que viveram há cerca de 110 milhões de anos”, destaca Souza.
Novas descobertas
Para Souza, a região amazônica teve grande diversidade e quantidade de dinossauros. “Mas apenas 1% da área da região já foi pesquisado. Existe falta de recursos e, principalmente, de paleontólogos na região, que possam estar próximos da área de pesquisa”, opina.

Ana Paula Linhares concorda com a assertiva. “Falta explorarmos mais. Ainda somos poucos paleontólogos na região amazônica, frente à necessidade de estudos. Nós temos várias bacias sedimentares fossilíferas, vários sítios fossilíferos de idades diferentes e não ter tantos profissionais especializados é algo que limita novas descobertas. Por isso, precisamos de recursos, para que as expedições de campo aconteçam e que elas possam alavancar o interesse dos jovens pelas geociências ou mesmo pela paleontologia, com essa vontade de fazer novas pesquisas. Com todo o conhecimento que o Museu Goeldi vem trazendo ao longo de sua história, esperamos colaborar para quem tiver interesse em estudar o nosso passado”, conclui.
PARCERIA INSTITUCIONAL
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