Em meio à floresta amazônica, às margens do rio Tapajós, no oeste do Pará, casas de madeira em estilo estadunidense, um antigo hospital, uma caixa d'água imponente e galpões em ruínas contam a história de um grande empreendimento industrial que fracassou.
Fordlândia, literalmente “Terra de Ford”, foi fundada há quase um século pelo empresário Henry Ford: uma cidade planejada, criada para abastecer a indústria automobilística com borracha das seringueiras amazônicas.
Questões naturais e culturais levaram ao insucesso do empreendimento e ao abandono da vila pela empresa e pelos funcionários estrangeiros. Hoje, Fordlândia é um distrito do município de Aveiro, conta com uma população de cerca de 1.750 habitantes e luta por ações de preservação.
AMBIÇÃO
Entre as décadas de 1870 e 1910, a Amazônia viveu o período áureo da borracha, produzida com o látex extraído da árvore nativa da região Hevea brasiliensis, a seringueira. O mundo todo demandava o produto, fundamental para a Revolução Industrial.
Em 1876, contudo, o botânico inglês Henry Wickham contrabandeou cerca de 70 mil sementes da espécie, levando-as para as colônias britânicas, em um dos casos mais emblemáticos de biopirataria da história. O resultado: nessas colônias, plantações de seringueiras prosperaram, criando uma concorrência à qual a borracha amazônica não conseguiu fazer frente: de 95% do mercado mundial, o produto brasileiro passou a responder por apenas 2,3% em 1928.
Foi justamente neste ano que foi fundada Fordlândia, um projeto ambicioso do empresário do ramo automobilístico Henry Ford. O industrial pretendia ter sua própria fonte de borracha, que, na época, era dominada pela produção do império britânico em suas colônias. O produto era fundamental para a produção de pneus e outras peças automotivas.
Assim, Ford decidiu criar uma cidade industrial na Amazônia, para fabricar borracha a partir da plantação de quase 2 milhões de seringueiras, em terras cedidas pelo governo do Pará. O projeto incluiu a construção, além da fábrica de borracha, de piscina comunitária, cinema, campo de golfe, escolas, geradores, serraria, oficinas, uma torre de água, casas para os funcionários estadunidenses, redes de energia elétrica e de água encanada e um hospital com tecnologia de ponta, onde foi realizado o primeiro transplante de pele no Brasil.

FRACASSO
De acordo com Túlio Chaves, doutor em História Social da Amazônia e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), o projeto não deu certo por vários fatores. “A primeira questão é a produção da borracha em modelo industrial. Na Malásia, para onde as sementes foram levadas, não havia inimigos naturais, como acontecia na Amazônia. Em Fordlândia, a plantação de seringueiras muito próximas umas das outras tornava fácil a contaminação por pragas”, explica o historiador.
Segundo Chaves, houve uma falha ambiental no processo de produção da borracha em Fordlândia. “Houve inúmeras tentativas de controlar essas pragas, desde 1928 até 1936. Aí, se tentou em outro lugar, um pouco mais seco e plano, na cidade de Belterra [também no Pará], onde foi implantada uma outra cidade até o início dos anos 40, quando de fato a Ford resolveu encerrar a produção de borracha natural na Amazônia. Nesse contexto, também já havia sido descoberta a borracha sintética, de produção muito mais barata, que suplantou definitivamente o sonho de plantação das seringueiras”, completa o pesquisador.
CHOQUE
Além disso, Chaves lembra que houve uma dificuldade de implantação do modelo de trabalho proposto por Ford na Amazônia. “A lógica de uma cidade industrial colocava todos os elementos da vida de um trabalhador sob o controle da indústria. A sua hora de trabalho, sua hora em casa, sua diversão, a lei seca que proibia o consumo de bebidas, a busca de controlar a vida dos filhos, das famílias, da saúde dessas pessoas, tornou a vida muito difícil para os trabalhadores, gerando inúmeras revoltas. A principal ocorreu em 1936, quando operários quebraram boa parte da fábrica. Isso demonstrou as contradições da implantação de um processo econômico que era estrangeiro à lógica de trabalho que até então havia sido implementada dentro da cultura amazônica e da própria cultura brasileira”, reflete o docente.
Fordlândia pós-Ford
O projeto foi abandonado em definitivo em 1945 e, em 1950, as terras e benfeitorias foram compradas da Companhia Ford Industrial do Brasil pelo governo brasileiro. A União assumiu as estruturas, operários e obrigações trabalhistas e é considerada detentora da área. Desde então, o local funcionou como instalações do Ministério da Agricultura, fazendas de gado e hoje abriga projetos de mineração.
Em mais de sete décadas, não houve ações do poder público no sentido de conservar o que muitos consideram patrimônio histórico, que desperta interesse de visitantes de todas as partes do mundo, curiosos sobre a grande empreitada de Ford na Amazônia.

“Hoje, Fordlândia tem buscado construir, dentro da sua perspectiva econômica e social, a memória e a preservação como um item importante da sua própria economia. É preciso entender que as crises econômicas e as ausências de políticas anteriores, de fato, geraram grandes problemas no processo de preservação. Boa parte daquilo que foi pensado inicialmente já foi alterado com as dinâmicas históricas de ocupação do distrito”, afirma Túlio Chaves.
PROCESSO
Em maio deste ano, a Justiça Federal decidiu, a partir de um pedido do Ministério Público Federal (MPF), que a União, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o estado do Pará e o município de Aveiro devem promover a recuperação e a conservação do conjunto urbano, arquitetônico e paisagístico de Fordlândia. O processo, que corre desde 2015, já recebeu apelação contrária do Iphan.
De acordo com Gilberto Batista Naves Filho, procurador do MPF do Pará, o pedido do Ministério para que haja intervenção dos entes públicos das três esferas considera que houve omissão histórica do poder público no local. “Isso levou a estado crítico de deterioração de um patrimônio de inegável valor histórico, arquitetônico e cultural para o Brasil. O complexo, remanescente da empreitada industrial de Henry Ford na Amazônia no século XX encontra-se em avançado estado de abandono. Inspeções judiciais confirmaram que edificações emblemáticas, como o antigo Hospital Henry Ford, estão em ruínas. O cinema sofreu colapso em sua cobertura e casas históricas tiveram suas características originais adulteradas. Além disso, o local tem sido alvo de saques e vandalismo, resultando na perda de peças e documentos inestimáveis”, afirma Naves Filho.
“A ação do MPF visou interromper um ciclo de décadas de negligência que ameaçava apagar um capítulo singular da história nacional. Recentemente, a Justiça Federal confirmou a validade desses argumentos, ao sentenciar que, independentemente da conclusão do tombamento formal, o poder público tem o dever de recuperar e conservar bens de reconhecido valor cultural”, diz o procurador.
Originalmente, o pedido do MPF era para que o Iphan fosse obrigado a concluir o processo de tombamento, iniciado na década de 90. Contudo, em maio de 2024, o Conselho Consultivo do instituto decidiu pelo indeferimento do tombamento das áreas de Belterra e Fordlândia. Os argumentos foram que, ao longo do tempo, o bem já teria perdido suas características originais e ações de preservação seria impossíveis, considerando o isolamento da localidade e o estado de conservação das estruturas. Questionado pela reportagem, o órgão disse que não se manifesta sobre questões relativas a processos em andamento e reafirmou a decisão pelo arquivamento do processo de tombamento.
Moradores querem tombamento
Naves Filho enfatiza que a ação do MPF foi motivada por demandas da própria população de Fordlândia. “A instauração do inquérito civil que precedeu a ação judicial foi motivada por representações encaminhadas por moradores do distrito em fevereiro de 2012, denunciando, via e-mail, o destelhamento e a depredação de prédios históricos. Em 2021, foi realizada uma audiência pública na localidade, com presença massiva da comunidade. Também foi realizada inspeção judicial nas residências, ouvindo relatos de moradores e verificando as condições de conservação dos imóveis”, relata.
O historiador Luiz Magno Ribeiro é um desses moradores. Nascido no distrito, ele conta que sua escolha profissional se relaciona com a história da cidade industrial. “Passei minha infância ouvindo as oratórias sobre Fordlândia”, recorda.

Ribeiro é um grande defensor do tombamento e da preservação. “Foram 34 anos de um processo que foi negado pelo Iphan. São máquinas, ferramentas, galpões, túneis, casas e memória viva de quem viveu esses momentos. O município de Aveiro não tem recursos para a revitalização ou manutenção do que restou. Portanto, teria que haver recursos das esferas estadual e federal para continuarmos contando o que foi, como está e como queremos que nossos filhos falem sobre Fordlândia no futuro”, argumenta.
Segundo Ribeiro, muitos já morreram aguardando essa revitalização. “Alguns já estão na casa dos 80 anos e, se você perguntar, a resposta sempre será a mesma: ‘Fordlândia um dia receberá atenção e poderemos desfrutar de 50% do que ela já foi’”.
PARCERIA INSTITUCIONAL
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