“Esse mês, fui lavar a caixa d’água da minha mãe e me deparei com esses mexilhões lá dentro. É uma água puxada do rio. E nossa família toda tem apresentado dor de estômago, diarreia. Achamos que tem a ver com esses mexilhões”. O relato é de Vera Lúcia Lobato, moradora da comunidade ribeirinha Nossa Senhora do Livramento, em Abaetetuba, no Pará.
O testemunho se refere a um problema que atingiu a bacia do Tocantins e ameaça se alastrar pelo rio Amazonas: a proliferação da espécie invasora mexilhão-dourado, natural do sudeste asiático. O molusco chegou ao Brasil na década de 90, oriundo da Argentina. A suspeita é que tenha vindo na água de lastro de algum navio proveniente da Ásia e que essa água tenha sido indevidamente despejada na região, jogando junto com ela fauna aquática de outra parte do mundo.
A chegada do mexilhão-dourado ao rio Tocantins já era esperada, trazida pelas correntes e por embarcações. A questão é que chegou muito antes do previsto: deveria ocorrer apenas em 2030, mas já foi detectada em 2023. É o que aponta um estudo realizado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Norte (Cepnor), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com o Laboratório de Ecotoxicologia da Universidade Federal do Pará e o Instituto Evandro Chagas e capitaneado pelo engenheiro de pesca Rafael Chagas.
Mas por que a presença desse molusco é um problema?
EXÓTICAS X INVASORAS
De acordo com Lana Magalhães, bióloga e doutora em Biodiversidade e Biotecnologia pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), espécies exóticas são todas aquelas que ocorrem em áreas de onde não são nativas. “Elas podem ser introduzidas de forma acidental ou intencional, esta última geralmente por motivos econômicos ou culturais. Na colonização do Brasil, por exemplo, o País recebeu muitas espécies de outros ambientes, para que se parecesse com o ambiente natural dos colonizadores. Já a forma acidental pode ser por meio de água de lastro de navios, escape de peixes de áreas de cultivo ou obras de alto impacto ambiental”, explica a pesquisadora.
A bióloga faz a diferenciação entre espécie exótica e invasora. “As espécies exóticas se tornam invasoras quando chegam a ser tão ou mais abundantes que as espécies nativas. Existem três fatores que determinam isso. O primeiro é que algumas espécies têm como característica a alta capacidade de crescimento; são generalistas e fazem uso do recurso de forma mais eficiente; ou produzem muitas sementes. O segundo é a suscetibilidade do ambiente: quanto mais alterado, maior a possibilidade de invasão. E o terceiro é o número de indivíduos introduzidos. Então, nem toda espécie exótica é invasora, mas toda invasora é uma exótica”, complementa a especialista.
Pesquisador mede alcance da espécie
O problema com as espécies invasoras é o impacto socioambiental que causam. Como não têm predadores naturais e se dispersam facilmente, acabam disputando recursos com as espécies nativas e interferindo no ecossistema local. Além disso, podem trazer prejuízos econômicos e mesmo de saúde para a população humana.

É o caso do mexilhão dourado. O molusco foi detectado pela primeira vez na Amazônia em 2023, em Marabá, no Pará. O estudo inicial de Rafael Chagas e equipe mostrou a presença de 88 indivíduos por metro quadrado. Já em uma segunda coleta, em 2024, foram identificados 12 mil indivíduos por metro quadrado e a presença em todos os municípios banhados pelo rio Tocantins, já tendo chegado a municípios da ilha do Marajó.
“Agora, vamos efetuar uma nova amostragem, para verificar se há assentamento de larvas ou indivíduos grandes em vários pontos de Belém até a ilha do Mosqueiro. Porque se há presença de larvas, mas os indivíduos não se desenvolvem, a própria dinâmica do rio Pará está impedindo a colonização. Mas é algo que ainda vamos testar”, indica Chagas.
IMPACTOS
De acordo com o pesquisador, o mexilhão-dourado já tem trazido impactos nas regiões pesquisadas. “Estamos ouvindo relatos principalmente de quem trabalha com piscicultura. Recebemos fotografias mostrando que a tela da rede, principalmente dos tanques-redes, fica infestada de mexilhão. Isso faz com que o manejo periódico seja realizado mais vezes, o que significa um gasto maior de tempo e recursos. Também já há registros na pesca: pescadores jogam a rede, que volta coberta de mexilhão e por isso não conseguem pescar. Já são prejuízos econômicos”, relata Chagas.
Segundo o engenheiro de pesca, o impacto na piscicultura é imediato, por conta da colonização acelerada. “Na pesca, pode demorar um pouco mais, porque essa espécie pode alterar toda a dinâmica da água, toda a fauna microscópica da água e, consequentemente, em cadeia, vai acabar afetando outros organismos, principalmente o peixe, que tem essa importância econômica para a região”, destaca.

RISCO À SAÚDE
Além disso, o molusco é um risco para a saúde. “A gente recebe relatos de que a população está querendo comer o mexilhão dourado, porque se parece com a espécie de mexilhão que temos aqui na região. Mas não é recomendado comer essa espécie invasora. Ela tem diversos patógenos, diversas toxinas e também pode acumular metais. Há também uma segunda preocupação: já descobrimos que o peixe Piau consegue consumir esse molusco. Então, essa concentração de metais passa para o peixe e, consequentemente, a população também vai ser afetada”, alerta Chagas. E há ainda a invasão e contaminação de reservatórios de água, como tem acontecido nas comunidades ribeirinhas de Abaetetuba.
Alex Lacerda de Souza, superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Pará, lembra que as espécies invasoras são a maior causa de extinção de espécies nativas não só no Brasil, mas no mundo inteiro. “São espécies que vão competir por alimento, vão predar as espécies nativas, podem trazer algum tipo de doença, se adaptam melhor momentaneamente àquele ambiente, não têm predador. Isso pode causar a extinção de algumas espécies”, alerta o biólogo.
Outros invasores preocupam
Além do mexilhão dourado, há outras espécies invasoras na Amazônia que causam preocupação. Um exemplo é o camarão da Malásia, que tem reduzido a população do camarão regional. “O camarão da Malásia cresce bastante, chega a trinta centímetros. Então, ele acaba se alimentando do camarão nativo ou mesmo competindo por alimento e espaço. O que tem acontecido é que o pescador joga o matapi [armadilha artesanal tradicional da região amazônica] e, quando ele tira, só vem o invasor e não o nativo. E o invasor acaba sendo comercializado”, destaca Chagas.

O pesquisador cita ainda as espécies invasoras caramujo africano, conhecido vetor de parasitas causadores de doenças em humanos, e o peixe Tilápia, que tem importância comercial muito grande em outras regiões do País, mas é considerado invasor porque se reproduz com facilidade, é muito resistente e compete com os peixes nativos.
Já em relação à flora, a bióloga Lana Magalhães cita acácias, leucenas, mangueiras e jaqueiras como algumas espécies invasoras. “Há um projeto de lei para que a leucena seja erradicada do Brasil. Ela é muito presente na arborização urbana. Já a mangueira está presente em muitos ambientes da Amazônia, pelo aspecto alimentar, assim como a jaqueira, que traz problemas na região”, afirma a pesquisadora.
Jaqueira promove guerra química
Os estudos de Lana Magalhães se voltaram para espécies vegetais no Parque Estadual Sumaúma, em Manaus. De acordo com a pesquisa, foram encontradas doze espécies invasoras, além de várias outras exóticas. Uma delas foi a jaqueira, investigada de forma mais específica pela bióloga.

“O sucesso da jaqueira se deve em parte pela questão reprodutiva: cada ciclo reprodutivo gera mais de cem frutos e cada fruto contém mais de cem sementes. Além disso, ela tolera ambientes com diferentes características. E nosso estudo também identificou que ela tem a capacidade de liberar substâncias químicas que inibem que espécies concorrentes se estabeleçam ao redor. É uma competição química. Fizemos experimentos e conseguimos demonstrar que, embaixo da jaqueira, havia a redução da germinação ou desenvolvimento inicial de espécies nativas”, explica.
Lana Magalhães ressalta a importância da educação ambiental para conter o avanço de espécies invasoras. “Visitamos quintais na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé e percebemos que os moradores não tinham conhecimento sobre a proibição de espécies exóticas invasoras em unidades de conservação. O objetivo dessas áreas é justamente a conservação da biodiversidade nativa”, destaca a bióloga.
Ações buscam frear ameaças
Diante da ameaça que as espécies invasoras representam, o que é possível fazer? Segundo Alex Souza, do Ibama do Pará, o enfoque tem sido conscientizar a população. “Nós coordenamos, ano passado, o primeiro seminário do Pará sobre o mexilhão dourado, em Igarapé-Miri. Nossa luta principal é evitar que o mexilhão-dourado se espalhe para outras bacias além do Tocantins. Estamos vivendo uma expansão muito acelerada dessa espécie, mas a tendência é que essa população se estabilize. A eliminação em si desse animal é muito difícil, então a gente busca conscientizar as comunidades para que façam o controle nos seus locais”, diz o biólogo.

Rafael Chagas reforça a impossibilidade de suprimir a espécie e a importância da educação. A pesquisa em que atua tem um subprojeto chamado "Roda de conversa: O papel da comunidade no combate ao mexilhão-dourado". “Infelizmente, o mexilhão-dourado está aí, temos que nos acostumar com ele. Então, vamos nas comunidades e falamos sobre metodologias para diminuir a quantidade dele no meio ambiente. Fomos em uma comunidade e vimos que, embaixo do trapiche, estava cheio e os moradores nem sabiam. Então, fizeram um mutirão para a limpeza, que vai precisar ser periódica. Também conversamos com pescadores para fazerem vistorias em suas embarcações, para ver se há incrustação do molusco”, conta o engenheiro de pesca.
Na mesma área da educação ambiental, Lana Magalhães já realizou um projeto com seus alunos da rede estadual pública em Manaus. “Trabalhei com eles o conhecimento que tinham sobre invasões biológicas e a maioria não sabia o que era uma espécie invasora. Esse projeto mostrou que precisamos melhorar o conhecimento sobre isso na educação básica, especialmente na nossa região, onde temos essa grande biodiversidade. É preciso criar políticas para identificar as vias de introdução de espécies exóticas, para conhecê-las antes que elas se tornem um problema, e realizar ações de manejo. Mas também é fundamental esclarecer a sociedade sobre os ricos trazidos pelas exóticas e sobre a valorização das espécies nativas”, diz.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.