A construção civil é uma grande emissora de gases do efeito estufa: cerca de 39% das emissões no mundo provêm dela, incluindo as causadas pela produção dos materiais de construção e pelo funcionamento dos prédios. A indústria do cimento é, sozinha, responsável por cerca de 7% das emissões no mundo. Embora menos poluidoras, as olarias, que produzem tijolos e telhas, também têm impacto ambiental, por envolverem a queima de materiais.
Iniciativas para reduzir a pegada de carbono na construção civil têm se concentrado mais em mudanças no funcionamento das construções, como nas áreas de refrigeração e iluminação. Mas, ao redor do globo, inúmeras tecnologias buscam tornar os materiais de construção mais sustentáveis, seja por meio do uso de materiais renováveis ou reciclados ou por mudanças em seu método de produção.
Na Amazônia, os estados do Pará e do Amazonas já pesquisam e adotam tecnologias para a criação de materiais de construção de menor impacto ambiental. No Instituto Federal do Pará (IFPA), por exemplo, o engenheiro civil e professor Marco Antônio Oliveira desenvolveu um tipo de cimento que usa dois resíduos da indústria de celulose em sua composição.
CIMENTO
“A indústria do cimento está entre as que mais emitem CO2. A extração da matéria-prima, que é o calcário, já é impactante ao meio ambiente. Além disso, a produção do cimento, em si, causa mais impacto ainda, porque o calcário é queimado em altas temperaturas para se obter o clínquer, que é a base do cimento. Então, o que se faz para se utilizar menos calcário e menos clínquer? Algumas indústrias utilizam outras adições minerais, como cinzas volantes, escória de alto forno. A ideia é que cada vez mais se consiga utilizar outras adições minerais ou buscar adições vegetais, como é o caso do meu estudo”, explica o professor.
O cimento desenvolvido por Marco Antônio Oliveira, portanto, causa menos emissões de gases do efeito estufa, com o reaproveitamento de resíduos como um produto para a cadeia da construção civil. “Utilizei dois tipos de resíduos da indústria da celulose. Um deles chamei de Cinza Volante de Biomassa (CVB) e o outro de Filler Calcário de Biomassa (FCB). Fiz diversas misturas, em várias concentrações, com um, com outro e com os dois juntos, para produzir o que chamei de CPR [Cimento Portland com Resíduos] 1, 2 e 3. O CPR 3 tem 50% de resíduos”, completa.
A ideia foi reduzir o uso de clínquer na mistura, usando a biomassa de base vegetal. “Esses resíduos existem em uma quantidade imensa, porque o Brasil é um dos maiores produtores de celulose do mundo. Então, dar um destino para esses resíduos já é uma vantagem. E, como é um material abundante, se torna viável economicamente para a indústria cimenteira. E o melhor é que todos os tipos de cimento passaram por inúmeros testes e atenderam a todas as normativas vigentes, como resistência à compressão”, aponta.
Resíduos de açaí viram tijolos ecológicos
De forma independente, fora do IFPA, Marco Antônio Oliveira também desenvolveu outros materiais: o tijolo ecológico e o piso biodrenante, compostos por resíduos da cadeia produtiva do açaí. De acordo com o professor, caroços, fibras e cinzas provenientes do açaí passam por um tratamento para evitar a decomposição e inibir a proliferação de microrganismos. “A partir disso, são utilizados como subprodutos em componentes e sistemas construtivos. Criei, junto a fábricas parceiras, o tijolo ecológico Pai D’Égua ou Papa-chibé e o piso biodrenante Pai d’Égua ou Papa-chibé. O caroço de açaí tratado é utilizado na mistura como um insumo similar à matéria-prima convencional (areia, seixo, brita, etc.), comumente utilizada como material componente de matrizes cimentícias (solo-cimento, argamassa, concreto)”, explica o pesquisador.
De acordo com Oliveira, os materiais trazem diversas vantagens ambientais, como o reaproveitamento de resíduos, o fomento à bioeconomia circular e a redução de emissões de gases do efeito estufa. O custo de produção é similar aos tijolos e pisos drenantes convencionais.
Tijolo ecológico ergue casas na ilha do Combu
Uma das tecnologias desenvolvidas por Marco Antônio Oliveira já está sendo usada na prática, na construção de habitações sociais na ilha do Combu, em Belém. “Em um projeto da Cohab [Companhia de Habitação do Pará], já estão sendo erguidas Unidades Habitacionais de Interesse Social com o tijolo ecológico, tendo como conceito o incentivo ao uso sustentável de recursos locais e a proposta de contribuir para soluções climáticas replicáveis de construção sustentável, valorização de insumos de identidade regional e fortalecimento do protagonismo da Amazônia na agenda climática”, enfatiza Oliveira.

O projeto citado pelo professor é o “Sua Casa COP 30 Sustentável”, que vai construir 45 moradias sustentáveis na ilha, utilizando o tijolo ecológico do tipo solo-cimento, produzido sem queima e com a adição de granulados obtidos a partir do caroço do açaí. Além do tijolo, a construção incluirá também outras técnicas de menor impacto ambiental, como o uso de telhas ecológicas e a instalação de biodigestores para tratamento de resíduos orgânicos, gerando biogás e biofertilizante.
A expectativa é que isso gere uma redução de cerca de 28 toneladas de emissões de CO₂ na atmosfera. Além disso, haverá redução de até 30% do tempo de construção em relação à alvenaria tradicional e economia de cerca de 40% no uso de materiais, que proporcionarão maior conforto térmico e isolamento acústico. As casas terão o formato de palafitas, respeitando as tradições ribeirinhas.
LINHA DE FRENTE
De acordo com Cassiano Ribeiro, economista da Cohab e um dos responsáveis pelo projeto, a iniciativa surgiu como uma necessidade de reposicionar a Companhia para atuar na linha de frente da crise climática, ampliando o programa habitacional para grupos minoritários como os povos tradicionais, ribeirinhos, quilombolas e indígenas que, historicamente, são mais afetados pelo déficit de moradia e pelos impactos ambientais.
“No fim de outubro, iniciamos a logística de distribuição dos materiais, e a primeira etapa de construção - que consiste em uma plataforma em concreto feita no sistema de fundação - segue até o fim de dezembro. Estimamos que dez unidades já deverão ser concluídas na primeira etapa e pelo menos três unidades serão finalizadas ainda em dezembro. Em janeiro, o projeto intensificará a distribuição de materiais para outras famílias, com a previsão de conclusão do projeto até abril de 2026”, afirma Ribeiro.

A guia de turismo Analice Mota, moradora da ilha do Combu, será uma das contempladas da primeira fase e afirma que a conquista sela a luta pelo direito à moradia digna. “Nós sempre vivemos do açaí, trabalhamos com açaí, tanto para nosso sustento quanto para o turismo. A gente sabe que tem muitas problemáticas aqui com a influência de marés, e uma casa digna é uma felicidade muito grande. É um espaço que é feito com tijolos com reaproveitamento desse açaí, é um diferencial do projeto”, celebra a ribeirinha.
Amazonas Ecolar retira famílias de áreas de risco
No estado do Amazonas, uma iniciativa busca dar melhor destino ao que é um grande problema ambiental: o excesso de plástico descartado. Um projeto, apresentado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), realizada em novembro em Belém, e lançado oficialmente no último dia 17, em Manaus, vai transformar esses resíduos em tijolos para construção de unidades habitacionais para pessoas em vulnerabilidade.
Chamado de Amazonas Ecolar, o projeto pretende realocar famílias vivendo em áreas de risco para moradias seguras e sustentáveis, construídas com blocos feitos a partir de resíduos plásticos, com tecnologia criada por uma empresa colombiana. Segundo o secretário de Defesa Civil do Amazonas, coronel Francisco Máximo, as novas casas deverão ser a solução para mais de 200 mil famílias que habitam áreas afetadas por deslizamentos, alagamentos e enchentes, além de diminuir a grande quantidade de plástico no meio ambiente.
“O projeto surgiu da necessidade de enfrentar, de forma integrada, dois grandes desafios do estado: o déficit habitacional e o crescente impacto ambiental causado pelo descarte inadequado de resíduos plásticos. A iniciativa foi concebida pelo governo do Amazonas, por meio da Defesa Civil, como uma solução inovadora e sustentável, capaz de transformar um passivo ambiental em benefício social, promovendo moradia digna, proteção às famílias que vivem em áreas de risco e o fortalecimento da economia circular no estado”, explica Máximo.

O secretário afirma que será implantado um Centro de Reciclagem em Manaus, com capacidade para processar mais de 80 toneladas de plástico por mês. “Por se tratar de um processo novo, o projeto será implementado de forma gradual e estratégica neste primeiro momento, priorizando famílias em situação de maior vulnerabilidade. A meta inicial é a entrega de até 300 casas por ano, com a ampliação progressiva da capacidade de produção ao longo do tempo, conforme a consolidação do projeto, a disponibilidade de recursos e a expansão do modelo, sempre alinhadas às políticas habitacionais e de proteção social do governo do Amazonas”, reforça o coronel.
ECONOMIA CIRCULAR
A iniciativa do Amazonas se apresenta como uma solução inovadora e sustentável, capaz de transformar um passivo ambiental em benefício social. Máximo conta que o Centro de Reciclagem será gerenciado pela Defesa Civil do Estado, que ficará responsável pela operação, coordenação e gestão de todo o processo produtivo. O material utilizado será adquirido de cooperativas e associações de catadores que recolhem o plástico dos rios, fomentando uma nova cadeia de renda.

“Investir em construções sustentáveis é uma decisão estratégica e responsável. Projetos como o Amazonas Ecolar demonstram que é possível aliar proteção ambiental, inovação tecnológica e inclusão social. Ao utilizar materiais reciclados, o governo reduz impactos ambientais, fortalece a economia circular, gera emprego e renda e, ao mesmo tempo, promove moradia digna e segura para a população. Esse modelo representa um avanço nas políticas públicas, alinhado aos desafios climáticos e sociais contemporâneos”, conclui o secretário.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.